.::. Caso Adamor Guedes .::.

Discriminação, violência, silêncio e IMPUNIDADE

Uma das maiores líderes do movimento gay no Brasil, Francisco Adamor Lima Guedes, 40, foi morto com uma facada no pescoço na madrugada do dia 27/09/2005 em seu apartamento, na rua Ramos Ferreira, bairro Aparecida, Zona Sul. O crime aconteceu por volta de 1h e os suspeitos Ronildo Mendes da Silva, 19, Adriano de Souza, 18 e Lineu Pereira Guedes, 24, confessaram a participação no assassinato. Adamor era presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Travestis (AAGLT), e sua morte causou comoção entre líderes da comunidade homossexual e entidades defensoras dos direitos humanos no Brasil e exterior.

O bárbaro crime foi cometido com requintes de crueldade, sangue frio e selvageria.
A violência mobilizou toda a polícia de Manaus, uma vez que Adamor Guedes era conhecido no mundo inteiro,
em virtude de sua atuação contra o preconceito.

 

Todas as entidades associadas a Associação de Saúde Integral e Cidadania na América Latina e Caribe (Asical), com sede em Quito, no Equador, receberam um boletim sobre a morte do ativista, que foi veiculado no sites das principais associações de defesa dos direitos dos gays, lésbicas e transgêneros do mundo. O presidente da Asical, Orlando Montoya, na época, disse que seria desencadeada uma campanha internacional de protesto pela morte de Adamor Guedes, e para que as autoridades policiais e judiciais encontrem os culpados do assassinato.

O crime está sendo investigado como latrocínio (assalto seguido de morte - nestes casos os réus não irão a jurí popular) por que os criminosos tentaram levar uma televisão da casa de Adamor. Entretanto, existem outras linhas de investigação. Especula-se que os três homens poderiam ser "parceiros" da vítima.
Familiares e amigos de Adamor contestaram a hipótese de tentativa de assalto. "Não acredito que seja roubo. Não levaram nada da casa dele. Tentaram levar uma televisão, mas não conseguiram. Para mim esse foi mais um crime contra gays no Amazonas, que é um dos Estados campeões nesse tipo de violência", lamenta a vice-presidente da AAGLT, Bruna La Close, 31, amigo de Adamor.
O combate à homofobia (medo ou desprezo aos homossexuais) era uma das principais bandeiras de luta de Adamor durante seus mais de 13 anos de militância no movimento gay.

O assassinato de Adamor Guedes, ativista do movimento de homossexuais em Manaus, obriga as pessoas de bom senso a uma parada e à discussão sobre o avanço da violência sob todos os aspectos da vida cotidiana. Manaus está entre as cinco cidades brasileiras que lideram o ranking de assassinatos de homossexuais.

A discriminação e o preconceito têm atuado como armas eficientes na manutenção desse quadro. O Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou um estudo que mostra o crescimento em 26% do número de assassinatos de homossexuais no Brasil. Foram 158 mortes, em 2004 - 33 a mais que o ano anterior. Dados do GGB indicam ser esse o segundo maior índice, desde 1999, quando foram constatadas 169 mortes decorrentes de homicídio.

Adamor Guedes tornou-se, nos últimos anos, a voz pública dos homossexuais. Lutou para que tivessem uma organização mais qualificada e politicamente ativa. Sua insistência e determinação abriu portas tradicionalmente fechadas, e instaurou diálogos importantes na área da saúde, da educação e da garantia dos direitos. Buscou as mais diferentes instituições, acreditando na possibilidade de realizar trabalhos que minimizassem os riscos dos homossexuais e promovessem uma noção de respeito. Levou o movimento para a rua; convidou a população a olhar de outra forma, a se aproximar, a discutir as diferenças e descobrir que pode conviver, bem, com elas. Assassinado, Adamor deixa como legado a sua resistência, como espécie de último ato para que outros Adamor soltem a voz e façam continuar a batalha.

A indiferença com que a discriminação e os assassinatos são tratados, nesta cidade, evidencia a necessidade de o movimento social organizado enfrentar, a partir de uma outra postura, essa mazela. Indiferença é uma forma de cumplicidade e de aceitação. Manaus deve incomodar-se em ser parte de um ranking que envergonha e atenta contra os princípios fundamentais da humanidade. Que a trágica morte de Adamor Guedes represente uma oportunidade para a sociedade se pronunciar, com veemência, contra a violência e pela defesa da vida; e os homossexuais tenham, nesta cidade, um tratamento de respeito. O que se tem hoje é ato de selvageria, não pode continuar.

Luiz Motte Chegou a Pedir Proteção para Adamor Guedes
Noticiário em 31/01/2003

Em decorrência dos trabalhos desenvolvidos no Estado pelo presidente da Associação Amazonense de Gays, Lésbicas e Travestis (AGLT), Adamor Guedes, com relação à violência praticada contra homossexuais e outras minorias, o fundador do Grupo Gay da Bahia e membro do Conselho de Combate à Discriminação do Ministério da Justiça, Luiz Mott, enviou ofício ao governador Eduardo Braga, ao secretário de Segurança Pública, Júlio Pinheiro, e ao secretário de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania, Frederico da Silva Veiga, pedindo proteção de vida para Adamor.

A cópia do ofício foi encaminhada por Adamor à mídia e o pedido refere-se também às últimas informações publicadas na imprensa local de que Adamor, a delegada de Proteção à Criança e ao Adolescente, Graça Silva, e o deputado Mário Frota estariam sendo ameaçados.


Na carta, Mott explica os motivos do pedido: “Acompanho igualmente e tenho denunciado a violência que se abate contra os homossexuais nesta região, posto que nos arquivos do Grupo Gay da Bahia constam documentos comprovando que nas duas últimas décadas foram cruelmente assassinados 52 gays e travestis amazonenses, vítimas do machismo e da homofobia. Assim sendo, conforme noticiou a imprensa, as ameaças contra a segurança e a integridade física e moral do presidente da AAGLT é extremamente preocupante, necessitando de imediatas e enérgicas medidas do poder público no sentido de evitar qualquer tipo de constrangimento ao principal líder gay do Brasil Norte. Contamos com o empenho de Vossas Senhorias, no sentido de dar-lhe proteção de vida em tempo integral até que os que o ameaçam sejam capturados.”

Mott assinala que, na Região Norte, o Amazonas acompanha “a mórbida liderança, pois tendo uma população de poucos menos de 3 milhões de indivíduos, vem ocorrendo nos últimos anos o dobro de assassinatos de homossexuais registrados no vizinho Pará, que tem a população duas vezes mais numerosa.”

Com base nos arquivos do grupo Gay da Bahia, no período de 1983 a 2001, houve no Amazonas 49 assassinatos, sendo 37 gays (76%), 11 travestis (22%) e uma lésbica. Os números revelam que, no Amazonas, sobretudo nos últimos anos, os crimes de ódio contra homossexuais têm aumentado dramaticamente: quatro mortes na década de 80; 34 nos anos 90 e, somente em 2000-2001, 11 crimes. Uma média de três assassinatos por ano, um a cada quatro meses.

Réus Confessos em Liberdade
Quatro meses depois do assassinato de Adamor

A Associação Amazonense de Gays, Lésbicas e Travestis do Estado do Amazonas, divulgou nota oficial a imprensa contestando a decisão.

Companheiros, no dia 14 de janeiro/2006, fomos tomados por uma informação que nos deixou abalados, os três réus confessos
( LINEU PEREIRA GUEDES, ADRIANO DE SOUZA E RONILDO MENDES) de assassinarem o nosso grande companheiro Adamor Guedes, foram soltos. Tudo foi feito as escondidas para que não soubessemos o que estava ocorrendo, só soubemos o que aconteceu quando um membro de nossa instituição tomou um susto ao encontrar em pleno Centro de Manaus o Lineu (que deu a facada no Adamor) ele não acreditou no que estava vendo e so teve certeza quando uma outra pessoa falou que também havia visto no Centro o Adriano. Investigamos o assunto e somente hoje foi que o site do Tribunal de Justiça colocou no ar que os três assassinos de Adamor estavam soltos. Os Alvaras de Soltura foram emitidos no dia 11 de janeiro de 2006 e cumpridos no ultimo dia 13 (
www.tj.am.gov.br ).
Entedemos que houve algo nessas solturas, pois em reunião com o Presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas, Arnaldo Carpinteiro Peres, houve o seu compromisso diante da imprensa presente de que os assassinos de Adamor não teriam nenhum privilégio e que ficariam presos até o julgamento. Até mesmo o proprio Procurador-Geral de Justiça nos disse informalmente que não sabia que os três estavam soltos.
Sabemos que esse crime não pode ficar impune, por isso pedimos aos companheiros que sempre apoiaram a nossa luta e principalmente o trabalho que o Adamor realizava que mandem e-mail para a Tribunal de Justiça (
presidencia@tj.am.gov.br , pleno@tj.am.gov.br ), Secretaria de Justiça do Amazonas ( sejus@sejus.com.br ) e para o Ministério Publico do Amazonas, cobrando esclarecimentos.
Pedimos ao Marcelo Nascimento, que esteve em Manaus, logo apos o assassinato de Adamor que acione o CNCD e o Ministério do Justiça para que nos ajudem. Iremos no dia 16 de janeiro fazer uma peregrinação pelo Tribunal de Justiça, Ministério Publico, Secretaria de Justiça, para que os três voltem para a Cadeia. Estamos inconformados e precisamos de toda a ajuda que for possivel e pedimos, ainda, encarecidamente que as Associações Nacionais e Regionais do Movimento Homossexual que enviem um documento se posicionando sobre o caso para que possa servir de apoio em nossas visitas.

E-mail enviado por Bruna La Close e Rosinado Rodrigues
Em Janeiro de 2006

O Rumo do Caso

Três anos depois o Caso Adamor Guedes caminha rumo a impunidade. O processo ainda não foi julgado, os acusados (RÉUS CONFESOS) estão em liberdade, as testemunhas de acusação calaram-se e a a Justiça tende a arquivar o processo por falta de provas.Isso pode acontecer? Pode...
No Brasil, onde a impunidade virou rotina o Caso Adamor Guedes está sendo mais um exemplo a fazer parte das estatísticas de impunidades que revoltam a sociedade e depois caem no esquecimento até quando mais um críme bárbaro aconteça e volte a tomar conta das manchetes dos jornais. Isso virou um circulo vicioso, crimes, revolta, pedido de justiça, impunidade e o esquecimento. Nada acontece para que este absurdo mude, nada é feito de certo para que no mínimo se tomem alguma providência que mude este quadro vergonhoso. Esperamos que o mínimo de justiça seja feita mas nada, nada, nada e nada se faz. Parece que já nos acostumamos com os demandos que são tantos e não conseguimos forças para lutar, parece que o desânimo nos imobiliza e nos faz cumplices desta pouca vergonha.É lamentosa esta situação de "deixa pra lá, já morreu". Enquanto isso novos crimes crueis continuam a acontecer contra homossexuais e se acontecem é porque os criminosos sabem, que no final das contas não haverá justiça e não havendo justiça ficam livres para cometer outros crimes, mais horripilantes ainda.
Só nos resta tomarmos cuidados para que não sejamos mais uma vítima da violência e da impunidade.

 

Fontes de Pesquisas:
Principais Jornais de Manaus (2003 a 2005)
Depoimentos de Amigos (2008)

 

Tributo a Adamor Guedes

 

Fotos Arquivo Manaus To All

 

 

 

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